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Cerimônia com Ayahuasca, o Sagrado Chá Indígena, é Realizada em Barra de São Francisco

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Cerimônia com Ayahuasca, o Sagrado Chá Indígena, é Realizada em Barra de São Francisco

A ayahuasca é uma bebida sagrada feita a partir de duas plantas medicinais da floresta amazônica: o cipó mariri ou jagube e as folhas do arbusto chacrona ou rainha. Ela é usada há milhares de anos pelos pajés de várias comunidades, principalmente amazônicas, do Brasil, Peru e Equador, para comunicação com o mundo espiritual, cuidados físicos e emocionais.

Para preparar a Ayahuasca, é preciso conhecer a proporção exata das plantas e o modo de cozinhá-las. Esse conhecimento é transmitido pelos pajés, lideranças espirituais, sendo os guardiões dessa tradição milenar. Na internet, é possível encontrar o produto à venda, mas é muito arriscado consumi-lo sem a orientação de um especialista, pois pode haver adulteração, contaminação ou dosagem inadequada.

No Brasil, a Ayahuasca não é listada como uma substância ilegal, mas tem seu uso indicado, apenas em cerimônias étnico, religiosas. Os estudos científicos sobre seus benefícios na saúde, seguem crescendo e com apontamentos promissores. Mas, lembrando que há contra indicações.

No dia 25 de novembro de 2023, sábado, aconteceu uma cerimônia da Ayahuasca em Barra de São Francisco (ES), no Espaço Terapêutico Santa Angélica, no Córrego Santa Angélica. Quem conduziu a cerimônia foi a Katiúscia Dias, Terapeuta Integrativa, Nutricionista, estudiosa e expoente dos saberes e práticas xamânicas, confluências afroindígenas, saúde e espiritualidades. Ela é de Piúma, sul do ES.

Para participar da cerimônia, os interessados precisaram passar por uma entrevista prévia, onde foram avaliados os seus aspectos físicos e mentais. Foram verificados se o candidato usava alguma medicação psicoativa, se tinha algum diagnóstico ou tratamento psiquiátrico e se sofria de alguma doença cardiovascular. Somente após essa avaliação, os pretendentes foram liberados ou não para o ritual.

Além disso, houve um período de dieta para o protocolo, que consistiu em seguir algumas recomendações nos três dias anteriores à cerimônia. Entre elas, estavam: evitar o consumo de carne vermelha, frituras, açúcares refinados e condimentos; abster-se de relações sexuais dois dias antes; e silenciar o espírito, evitando pensamentos e emoções negativas. Como se pode perceber, a Ayahuasca não é um ritual que qualquer um pode participar sem um preparo adequado.

Antes de iniciar o ritual, Katiúscia explicou a origem e o significado da cerimônia, dando uma verdadeira aula de antropologia. Ela tirou as dúvidas e acalmou os ânimos dos 20 participantes, que estavam ansiosos e curiosos. Disse que a Ayahuasca não tinha segredos, mas mistérios, e que cada um teria uma experiência pessoal e única no processo. Ela também informou que seriam oferecidas três doses da bebida ao longo da noite, mas que cada um, era livre para aceitá-las ou não. A dirigente ainda alertou que os efeitos mais comuns eram: vômitos, diarreia, choro e riso. Ela esclareceu que tudo isso fazia parte do ritual e que servia para liberar aquilo que o corpo e o espírito precisavam: emoções reprimidas, medos, angústias, culpas, etc.

O local da cerimônia foi preparado com muito cuidado e carinho, com velas espalhadas pelo terreiro e uma fogueira acesa no centro. Os participantes chegaram por volta das 18h e se acomodaram em colchonetes dispostos em círculo ao redor da fogueira. O fogo era mantido aceso, com zelo ritualístico, pelas mãos de uma mulher, que auxiliava a dirigente Katiúscia. Haviam também outras pessoas, que davam suporte aos participantes que sentiam os efeitos da bebida, auxiliando-os a ir ao banheiro, a se hidratar, a se acalmar, etc. Tudo muito organizado e seguro. Depois da recepção e das orientações, já passavam das 20h e o ritual começou de fato.

O primeiro ato foi a aplicação do rapé no nariz dos participantes, feita pela facilitadora. O rapé é um pó feito de tabaco e outras plantas, que tem um efeito estimulante e purificador. Cada um, era livre para receber ou não o rapé. Muitos aceitaram, já outros preferiram esperar pela ayahuasca. Aqueles que precisavam de uma limpeza do corpo, alguns minutos depois começaram a ter os primeiros efeitos: vômito.

Durante o processo foram reproduzidas músicas xamânicas, que criaram um clima de mistério e encantamento. As músicas eram cantadas em línguas indígenas, como o quíchua, o guarani e o tupi, e tinham sons de instrumentos como flautas, tambores e chocalhos. As músicas ajudavam os participantes a entrarem em um estado alterado de consciência, onde podiam ter visões, memórias, emoções e sensações intensas.

Após uma hora, foi servida a primeira dose da bebida. Ela tinha um gosto forte, amargo e persistente. Algum tempo depois, começaram os primeiros efeitos psíquicos. Cada um se deparou com a sua própria história, com as suas memórias, sentimentos, desejos, medos, sonhos, etc. Alguns tiveram visões, outros tiveram insights, outros tiveram revelações místicas, como encontros com o passado e orientações para o presente e o futuro.

Depois de um pouco mais de uma hora e meia, o efeito passou e foi oferecida a segunda dose da bebida. O resultado foi uma experiência semelhante à primeira ou um aprofundamento da busca pelo conhecimento interior. Após passar o efeito, foi oferecida a terceira e última dose. Grande parte do grupo recusou, pois, estava satisfeito ou o organismo não suportava outra dose para mais experiências. Por volta das 2h da manhã, foi encerrada essa parte do processo e oferecido um caldo de legumes para os participantes, que estavam cansados.

Terminada alimentação, alguns foram dormir cerca de 2h, já outros preferiram ficar conversando e compartilhando as suas experiências com os novos amigos. Assim que o sol nasceu, a cerimônia recomeçou com o café da manhã e um momento de partilha, onde cada um pôde expressar o que sentiu, o que aprendeu, o que agradeceu, o que pediu, etc. Foram horas de partilha num momento de muita emoção, conexão e de muita gratidão. Às 10h, os participantes saíram da cerimônia com um sentimento de paz, de amor, de luz. Pareciam estar renovados, com direcionamentos para uma transformação de vida.

Edilson Cezar Xavier é escritor, formado em Línguas e Letras pela Universidade do Espírito Santo (UFES).

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